terça-feira, 27 de março de 2012

Teatro?..

Hoje é o dia mundial dele. Trabalho nele quase todos os dias. Hoje, muitos o celebram. E eu dei por mim vazio na vontade de o celebrar. Deu-me o que pensar.

Que sinto eu pelo Teatro? E não é que não sei!

Gosto das palavras dele. Gosto da luz nele, dos corpos, dos jogos, dos símbolos, dos sons, da música, das metáforas.. Gosto da imersão no paralelo da realidade que proporciona.

Não o gosto panfletário, impositivo, revolucionário.

Gosto da forma como organiza o espaço: palco, plateia; da quarta parede, outro lado do espelho.

Gosto da convenção a que nos obriga, tácita. Gosto que a dite, clara.

Gosto quando é claro, preciso, literal e depois nos apanha desprevenidos nas curvas de poesia cénica.

E o engraçado é que estes 'gostos' cabem no teatro que gosto e no que não gosto.

Até aos 26 anos era um deslumbrado pelo teatro. Depois fui secando o deslumbre, à medida que aprofundava o métier.

Hoje é o que faço. Mais pelo teatro do outros que pelo meu.

Experimentei algumas vezes o meu teatro e abandonei-o cinco anos.

Este ano regresso a ele. (Pre)Sinto-o mais definido. Ainda não sei.

Mas o meu teatro é o da minha cabeça. Sei muito pouco de teatro, portanto.

Não sinto vontade de celebrar este dia.

E amanhã continuarei a cumpri-lo.

domingo, 25 de março de 2012

Dos tempos que correm.

Quem mais anda a sentir downloads no seu corpo? Downloads literais, como os que fazem aos computadores. Informação nova, complementar à existente. Updates de informação nas células, nos tecidos, no corpo, caramba! Com o cansaço que se lhes segue...

Não me impedem a produtividade.. quer dizer, atrapalham imenso, que só sinto a energia a esvair-se de mim no arrastar-me por entre as horas. Mas não deixo de fazer o que era suposto. Até dá tempo para umas sestas imperativas. É que se não descanso parece que acabarei por adormecer em qualquer esquina de rua por onde esteja a passar, como aquela vontade repentina de ir à casa de banho que nos obriga a entrar no primeiro café que se vê... Assim corro para o quarto, corro as persianas, acendo duas velas e caio na cama, a dormir.

Na realidade só fiz isto duas vezes. Mas apeteceu-me fazer muitas mais.

Os papos no olhos são gritantes. E claro, é inevitável pensar em ir ao médico. Já fui a uma osteopata, com quem me dei muito bem e tenciono voltar mais vezes. A pessoa certa no sítio certo. Quantas vezes o desejei, sem conseguir? Pois agora está fácil!

O tempo está apressado sobre si mesmo? Estaremos em fast-forward? Ou será a sensação de download a provocá-la? Que isto do tempo não é de se fiar...

O tempo.. se calhar são tempos do tempo. Tempos que correm no tempo que é. Seremos nós, feitos tempo, a correr no tempo?

Correr sim, mas não há propriamente pressa.. O que é estranho. Não é pressa dentro do tempo que corre.  É o próprio tempo que mudou, parecendo correr, mas só por comparação ao tempo antigo. O tempo novo é calmo, sem pressa. Mas é novo, com um novo tempo. Enquanto nos ajustamos, o tempo parece estar a correr, mas está no tempo certo do seu ser. Nós é que ainda não... por enquanto.... Como quando estamos prestes a pisar uma escada rolante, naquele momento em que saímos do tempo do nosso andar para o tempo da escada rolante...

Tempo paralelos, em existências paralelas, que se tocam. Nesse ato de contato estamos nós? Nesse tempo de dois tempos?

Se sim, não admira então a canseira...

terça-feira, 20 de março de 2012

Regeneração.

Há dias
rasguei indicador e dedo médio
da mão direita
na ombreira da porta
por ter lhe calculado mal a largura
enquanto levava o cesto grande
com a roupa molhada
acabada de tirar da máquina de lavar
para a estender a secar.

Ia alterado da consciência. A dor recuperou-ma. Sangrei um bocadinho.

Tenho vindo a reparar na cicatrização. Diária.

O meu corpo, no início, ainda com a dor, exigiu-me atenção. Depois tornou-se silencioso.

Regenera sem me incomodar. O meu corpo trata de si sem me incomodar.

Por que raio então o incomodo tanto com o meu pensar?


Montra.

Ontem. Zona baixa da rua do Carmo, junto ao Rossio. Inicio da tarde. Conversa com ZM.  Montra de loja.

A perceção, pela periferia do meu lado esquerdo, tomou-a por montra de antiquário com a figura de Cristo, em tamanho natural, exposta. A figura, corpo de Jesus, icónico, cabelos longos. Uma sensação de impactação meio assustada fez-se sentir no meus corpo,  mas dei pouca importância à coisa, que parecia normal. Ainda assim, foi inevitável o olhar melhor, que o arrepio falou mais alto.

De frente, com atenção consciente: sombra duma trave (que lembrava cabelo comprido), na cabeça do manequim, cinzento escuro, de loja de roupa, com uma caveira na tshirt.

A Sombra a fazer-me ver na sombra...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Esquematizador de emoções.

Sempre me tive como hiper-racional.

Uma vez, em Frankfurt, fui a uma terapeuta alternativa. Uma senhora magra. Alemã, muito para além da nacionalidade. Tem uma casa linda, divisões grandes, branca, espaçosa. Num dos quartos faz a sua função terapêutica. Uma marquesa no centro do quarto, uma secretária a um canto.

Fui lá porque estava frágil. Queria saber mais de mim, das maleitas da Sombra. Acreditava ir aberto, disponível, frágil é a palavra. Disposto a ouvir da generosidade dum outro a quem decidi dar-me. E julgava-me aberto para receber.

Ela fez o seu ritual.

Lembro-me que a páginas tantas as suas mãos começaram a passear pelo ar que rodeava a minha cabeça, em gestos largos, distanciados, sem lhe tocar. Gostava daquilo. Até ela proferir, rispidamente: 'a sua cabeça é enorme'. Senti culpa.

No final da sessão levei um raspanete, em inglês sotaqueado de radioatividade germânica: sou muito mental, a minha cabeça esmaga o meu ser com o pensamento. Fui sentenciado e condenado. Nem me lembro se algum conselho terapêutico surgiu daquilo. Mas lembro-me muito bem do que senti a seguir. Bom.. não logo a seguir.

Como sou muito submisso ao saber dos outros em quem decido acreditar, ouvi-a com lealdade. E senti-me traído. Começou com uma sensação de injustiça, que acatei. E paguei a consulta. Fez-me preço de estudante mas senti que quereria ter cobrado o preço total.

Saí dali. E começou.

A raiva apoderou-se de mim. O D., com quem ia, acabou por sofrer o impacto da minha ira. Verbalizei insultos à senhora, invadido de uma energia avassaladora. Gritei pela rua fora. D. silenciou-se e deixou-me vomitar a voz. Fiquei assim todo o trajecto de volta a casa, primordialmente emocional.

Sou mental? Na realidade, sou emocional. Hiper-emocional. Sombramente emocional.

O que saiu daquela sessão, acredito hoje, foi a Sombra liberta, vingadora da prisão mental que construí, que construo.

Sou muito emocional e, por isso, muito mental. Um emocional que o não sabe ser e que encontrou no seu mental um território interessante para construir uma barragem ao emocional. Fechou a comporta. A emoção acumulou. Os territórios separados, incomunicantes. Emoção tornou-se Sombra. A comporta do pensar cede, de quando em vez à pressão constante do sentir. Não se tocam, evitam-se, fecham os olhos um ao outro. Não negoceiam, não jogam...

Agora que escrevo, faço-o porque descobri, de uma nova maneira, a possibilidade de ser um esquematizador, à la Kant. Um esquematizador não nega a emoção; não nega o pensar, tão pouco. Coloca-os frente a frente, em negociação comuniKant!  O jogo é instável. O jogo é criador. Um jogo no espaço interior.

A tendência para o dominio do mental, do esquematizar só por si, do sintetizador excessivo, mantém-se. Mas a consciência tem andado a trabalhar sobre si mesma. O meu espaço interior aumenta e percebo-o melhor.

Sinto-me ético?

Voltarei a este páteo. Até já.

sábado, 1 de outubro de 2011

30 de Setembro

Aniversário de casamento da minha irmã do coração.
Aniversário do filhote da minha amiga do coração.
Aniversário da morte do pai do meu 'amigo' do coração.

Casamento, nascimento e morte. Aconteceram em anos diferentes mas são recordados todos os anos. Quando se tornaram simultâneos passaram a invocar, no mesmo dia, energias muito diferentes. Cada uma a puxar-me para seu espaço.

Hoje, a última destacou-se. E vivi-a com quem melhor quero nesta vida.

Lá para as horas do entardecer, o Porto ficou mágico. Água na água. Água no ar. E muito Sol. As dimensões tornaram-se mais visíveis na sua sobreposição, no seu serem diferentes em simultâneo. Tal como as emoções.

Escrevi no Face: "Há qualquer coisa de benção divina neste sol de outono. Ao meu olhar os objectos quase se transfiguram e parecem mais do que dão forma. O ar fresco trás-me de volta aqui porque, neste cenário, vai-se depressa para o "lado de lá"..".

Por muitos momentos saí de mim, sei-o. Mas ficou apenas a experiência da dormência e do spaced-out. Ainda assim, a sensação de transcendência, no que percepcionava.

O coração começou a falar e disse surpresas. Mas as palavras que saíram do transe acordaram a Sombra. Comecei a racionalizar, ainda que pouco para o que me é costume. Esta minha condição de me sentir dissolvido, mas completamente dissolvido, trás esta benece: a mente também o está.

Fiquei com a sensação da multidimensionalidade, mas não o posso, de todo, afirmar que existe. Só me pareceu que havia mais, naquilo que via nas formas, e a luz ajudava. Também tive mais uns daqueles momentos em que as coisas paradas pareciam mexer. Mas, novamente, a pouca lucidez do momento não me dá base para uma afirmação de realidade, apenas para a de uma percepção alterada.

Ando sistematicamente alterado. Durmo que nem um urso hibernante. Como irascivelmente. Doem-me diferentes partes do corpo, especialmente os pés. Estou claramente deprimido.  E transmutante, espero. Porque se for só deprimido mesmo.. olha 'filho da mãe que tens uma grande depressão B'!!

Era suposto ter ido para Lisboa, mas no íntimo sabia que não o faria. As minhas amigas que me perdoem, que contavam comigo. Eu que me perdoe, que me havia prometido exílio deste sítio.

30 de Setembro. Emoções diferentes, simultâneas. Dimensões diferentes, simultâneas.

(que puta de confusão)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Seja.

Ontem, depois do encontro com o meu amigo Oshoiano, senti que perdera densidade e estava mais leve e harmonizado. Foi uma conversa maravilhosa onde me surpreendi a sentir muito e a racionalizar obsessivamente pouco. Isto teve consequências físicas: as minhas células estavam contentes. Elas agora fazem-se sentir cada vez com mais clareza.
Anyway.
Realizei enquanto andava na rua: 'Se esta é a vida que eu tenho, esta só pode ser a vida que decidi ter antes de vir tê-la; logo é a vida que mais me convém, porque é do meu plano pessoal; logo é a vida que tenho que viver, por muito que, à medida que a vou tendo, me apeteça ter outra.'
Ontem fez mais sentido, e a elaboração verbal era mais clara, parece-me.
Por outras palavras, não faz sentido projectar-me noutra vida/vivência que agora pense ser melhor.
A lealdade ao plano original, que obviamente desconheço, parece ser determinante.
Lá está, mais uma vez, fé.
Sou isto, nesta vida, agora. Em vez de querer ser aquilo, vou ser fiel a ser isto. Mesmo que aparente, em muitos momentos, e com muita veemência, que podia ser 'outra coisa' melhor.
Deixarei para outras vidas ser outra coisa.
Deixarei para outras vidas relações com pessoas com as quais não dá para me relacionar nesta como desejaria.
Tudo o que não estiver a ser agora, fica para outra.
Só o que estiver a ser agora é para ser.
Apesar de que o que está a ser agora é impasse, adiamento, engorda, fôlego suspenso. São juizos, fruto de sentimentos processados. Pronto.
Esta é a minha vida agora. Não outra. Esta.
Seja.