domingo, 2 de março de 2014

Anais

"A carne contra a carne produz perfume, mas o contacto com as palavras apenas engendra sofrimento e divisão."

quarta-feira, 13 de junho de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

Is that so?

Não é altura para conclusões. That much I know and feel. É altura para chegar ao fim, para levar ao término o processo. Não lido com as pessoas no seu estado 'normal'. Lido com as sua Sombras, que já nem disfarçam mostrar a sua cara e atiram copos para o chão a meio dum ensaio técnico. Um copo que, misteriosamente, não se partiu, apesar da violência com que foi atirado.. Nem pediu desculpa. E quando me dirigi a ele e com uma calma surpreendente perguntei: 'está tudo bem?', respondeu: 'são coisas que acontecem', sem sequer me olhar nos olhos.

Tudo aponta para uma travessia negra pelo Mistério. Tem-no sido até aqui. Não sei no que dará, mas a sensação prevalecente é de descrédito, obstrução, resistência, pouco ou nenhuma fé.

É o que sinto nos outros.

Em mim... É mesmo um mistério. Estou calmo, sereno, e ao mesmo tempo, a preparar-me para o pior, que sinto, inexplicavelmente, não irá acontecer. A observar comportamentos que qualquer um diria de não profissionais, e a nível pessoal, desleais, especialmente tendo em conta que em mim, nas circunstâncias de trabalho regular, encontram um gajo que lhes quer dar o máximo que eles puderem receber. Não sei se realmente o faço, se é mais uma ilusão. Mas sinto que lhes dou, essencialmente reforço positivo, entusiasmo, e fé neles próprios.

Fiz questão de lhes dar toda a liberdade no processo. Tiveram muitas horas de trabalho de cena. E no entanto parece que o que foi feito foi vão. Permanecem as dúvidas, as incertezas, as resistências. Esforcei-me por esclarecer tudo quanto me pediam e que não compreendiam no texto, os porquês de determinadas ações que não viam que o próprio texto defendia.

No fim, cai-me nos ombros, proferido já por alguns, que cometi erros. Admito que sim. Mas não me sinto culpado, contrariamente à minha tendência regular de achar que tudo de mal que acontece se deveu a mim e às minhas incapacidades. Sinto que me desacreditei, ou que me desacreditaram, não sei. Sinto que o que digo agora cai totalmente em saco roto. Que é mais produtivo estar calado. Queixaram-se que tiveram informação a mais, que estão confusos. E lembrei-me da história do mestre Zen e da sua pergunta: 'is that so?'. (Mas como eu não sou um mestre Zen pensei: e se tivesses trabalhado mais e colocado questões, e dialogado e feito propostas e procurado resolver as coisas a seu tempo, com interesse, entrega e trabalho? Sabe Deus que não lhes faltou tempo nem oportunidade para isso. Quantas vezes senti que desperdiçavam o tempo, à espera que chegasse a revelação.. E eu a tentar explicar. Mas as minhas explicações não lhes pareciam certas, ou simplesmente não as conseguiam fazer. Duvidavam de tudo o que propunha, ainda que o tentassem fazer. Mas sem fé, quase como se, à priori, descartassem a coisa. No início a tentar compreender. Depois já sem tentar. E ainda me perguntava: será assim tão absurdo pedir que tornem ação, a angústia dum encontro com um ser do outro mundo? a destabilizaçao interior, disfarçada de normalidade? Não fiz uso da autoridade. Estava com medo. Não me impus. Não correspondi à figura de autoridade, de líder. Nivelei-me com eles. Acredito que foi esse parte importante do problema. É precisa muita maturidade e responsabilidade para se trabalhar sem um líder autoritário, digo eu. Mas parece-me que se confundiu autoridade com competência, não sei. Acho que foi isso: sinto que aos seus olhos era um incompetente).

Pediram agora carta branca para trabalhar, sem pensar tanto. Como se nunca a tivessem tido... Concedi mais uma vez.

Eu, que sou um comunicador por natureza, falhei na comunicação. Algures no processo aconteceu um distanciamento terrível. E, no entanto, como me esforcei para os ouvir, as suas críticas e sugestões, e como aceitei muitas delas e ouvi simplesmente as outras.

Acho que só o tempo poderá esclarecer o que agora se vive com emoções fortes.

Há uma vontade de fazer, isso é claro. De acabar. De despachar e passar ao próximo, isto também é claro.

Ando a acordar muito cedo todos os dias. 6h30, 7h, 8h.. Emagreci, coisa espantosa para o meu corpo.

É mesmo um mistério.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Da ilusão.

Adoro Ilusões. E, como diz o meu pai, 'quem se ilude, desilude-se'. Mais um facto que exemplifica a dicotomia da realidade ilusória em que dizem que vivemos, e na qual acredito, como fascinado por ela que sou.

O meu cérebro diverte-se imenso com o exercício da ilusão, como uma criança. E, contudo, o 'adulto' racional corta-lhe as vazas. Resultado: caos. E não em refiro ao criativo, ou pré-criativo, mas à desordem, ponto.

As minhas faculdades percetivas ficam toldadas e 'ai Jesus que lá vou eu' para o reino do pânico, com sintomatologia física, bem material.

No meio de todas estas repetições há uma revolução: estou a conseguir sair do pânico, permanecendo nele muito menos tempo que outrora.

O último exemplo foi sábado passado: ensaio corrido calamitoso. Tudo a correr mal: tempo demasiado lento, mudanças de cena disrutoras da sequência, questões técnicas empecilhantes, the whole shabang!

A noite de sábado foi de atirar da ponte. Felizmente o ZM veio em meu auxílio. Permaneci calado a maior parte do tempo com a cabeça panicada que nem elefante a ver um rato! Ele lá fez o esforço da compreensão da minha situação, apesar de não considerar que a coisa se justificava!

Dormi. Dia seguinte, 6am, ploft! fora da cama. Re-encenei a peça que enésima vez na minha cabeça, já cansado de o fazer. Por muito que antecipe o trabalho, ele será sempre o que o momento quiser. Esta questão entre planificação e o momento, como sempre, a ditar o padrão dicotómico existencial. Já ciente disto, não me forcei a planear muito: fiz um desenho rápido e fui curtir o sol e o dia! E, para meu próprio espanto, consegui, genuinamente, aproveitar o sol e o mar. Tive inclusivé um momento bem especial na praia do Senhor do Rocha, onde permiti que as emoções saíssem, chorei em agradecimento do muito que tenho, do privilegiado que sou. O índio que tocava flautas com acompanhamento gravado ajudou muitíssimo. O ambiente sonoro da praia acariciou a minha alma, e a minha mente, permitindo que esta relaxasse, se abrisse, e saísse a emoção contida, com a sensação de limpeza que se lhe seguiu. Depois deste momento, um longo passeio pela praia, com o vento a massajar a cabeça e o sol, o corpo. Bliss!

A meio da tarde voltei a sentir o pânico: como se 'alguém' o estivesse a mencionar, numa conversa com outrém. Uma conversa sobre os erros do meu trabalho e o perigo de não os saber corrigir. A emoção foi, de novo, enorme. Mas também passou, dando lugar a tranquilidade.

Ora, há uns anos atrás, cinco para ser mais preciso, nunca conseguia sair do estado de pânico. Aí permanecia de dia para dia, em comportamentos destrutivos, de tão compulsivos. Não é que agora não os tenha, que eles ainda dão sinal da sua presença, só que em muito menor grau de manifestação.

Ontem, o meu amigo M, foi ao ensaio, e contribuiu com uma ideia genial. Apliquei-a de imediato. Resultou de imediato.

O meu ego barafustou, mas a minha mente agradeceu, e o meu coração acima de tudo! Como estou muito toldado da perceção, e lento em perspetivar com inteligência emocional, aceitei aquela dádiva, tão preciosa de generosa. Aceitei. E soube-me tão bem, o aceitar, o render-me ao facto de que precisava de ajuda: ela apareceu e aceitei. Mais tarde pensei: já tantas vezes fiz isto por outros, foi agora a vez de o fazerem por mim. Fiquei muito grato, mas mais importante, feliz.

Sorrio, agora, que escrevo isto. O meu coração fala verdade!

A Sombra clareou. Vou gozar o momento!


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Mistério

Como poderia uma peça de teatro ser sobre o Mistério, sem Ele estar presente na sua produção?
A Sombra, agora, tomou conta de mim.
Se Mistério é o gatilho para mudança também o é a Sombra.
Never losses, always blessings.
Metade do elenco chamado a outro lado. Medo. Reação de defesa. Razão e reclamação. Bom senso e instabilidade emocional.
A metade que ficou, era a metade que precisava mais do tempo de Mistério. Estamos a vivê-lo. Em suma, em mistério, o Mistério a decidir. Eu de arrasto.
O que poderia ser - na minha mente foi-o - a traição e o colapço, revelou-se panaceico. Intuo que fundamental.
Never losses, always blessings.
Mudança. Sentir. Ver de cima, sentir em baixo.
Saber o correto, escolher o erro. E a Sombra a gostar.
O símbolo que prevalece. A acusação por outros à sua existência. A minha dúvida: desmorono-me com tão pouco.
Mantenho-me fiel? Fiel ao risco? Fiel ao Mistério?
O Universo de todas as oportunidades...
Batido de Alma.
Corpo energético intervencionado pelo ouvido direito. Velas.
O vazio momentâneo, a sua imensa recompensa.
Do Sopro de vida, ao verbo.
Batido de Mente.
Never losses, always blessings. Blessings. Blessings. Blessings...

sábado, 14 de abril de 2012

Semana um.

Passou.
Objetivamente, com muita produtividade.
Subjetivamente, com muito trabalho interior, sobre a fragilidade, a capacidade, a comunicação, a assertividade, a dúvida, a imaginação à solta - em associações livres - trazida à terra pela intransigência da coerência, o foco.
Dei por mim menos ligado às palavras e mais à compreensão das ações possíveis emergidas do impulso criativo dos outros. Estranhei-me. Estranho-me.
Esforço-me por me adequar ao tempo dos outros, bem mais lento que o meu. Travam-me, mas isso não é ineficaz. Pacientar-me, pace myself. Dar espaço ao Tempo.
Ainda não me sinto em posse da legitimidade da função, mas legitimo-me ao assumi-la.
Mais palavras, nesta fase, seriam demais.
O foco exige silêncio?...
Keep going.

sábado, 31 de março de 2012

Here we go again.

Ontem, na cama, prestes a cobrir-me com o edredon, porta do quarto aberta, luzes prestes a deixarem-me na escuridão na casa, senti a nuvem negra, estilo vapor negro, a entrar no quarto. Mesmo antes de apagar a luz da cabeceira senti-a em forma de cabeça a segredar-me ao ouvido. Não entendi o que disse. Mas soube o que tinha de lhe dizer: 'faz favor de ir embora, não és bem-vinda, xô!'

Apaguei a luz e continuei a senti-la. Nisto vem um barulho da sala. Pensei que o mac tinha caído ao chão. Levantei-me e fui ver o que se passara. Não tinha sido o mac. Foi um pacote de leite, vazio, que estava em cima da bancada da cozinha que caíra ao chão. Peguei nele e recoloquei-o na bancada.

Regressei ao quarto. Fechei a porta. Deitei-me, apaguei a luz. E o vapor negro entrou-me pela nuca e eu sabia que o faria. Defendi-me com o 'Raku' que o D. me ensinou. Mas fui sentindo a cabeça a ficar cada vez mais pesada. Até que adormeci.

Tive um pesadelo: sonhei que a encenação que estava a fazer era impossível de realizar: era debaixo de água e usava um submarino. Não conseguia mobilizar ninguém a trabalhar e todos estavam passivos e contrariados. Senti o falhanço total, que não iria conseguir estrear. E uma imensa e terrível solidão, impotente.

Daqui a uma semana começo ensaios duma encenação que farei. Até agora tudo corre maravilhosamente, na fase preparatória. Mas o medo reinstalou-se, como a nuvem negra. Há cinco anos que não faço nenhum trabalho de encenação.

Ontem de tarde, enquanto reunia com o compositor do espetáculo (ainda não contratado..) - reunião que correu maravilhosamente - em vez de dizer 'fui convidado', saiu-me 'fui condenado'.

No texto para divulgação que escrevi, falei extensivamente da oportunidade do mistério.. O Mistério, cuja mera presença, a muitos invisivel de início, obriga as personagens a lidar com os seus medos, com as suas sombras. A resistência à transformação, o medo da mudança, do sair da normalidade..

Estou diante da oportunidade: de revisitar as sombras que encerro em mim, os medos antigos, por resolver. Eu sou uma personagem da peça que vou encenar..

Como todos dizemos com leveza: há que aproveitar as oportunidades e não deixá-las fugir ou perder. Eis a minha oportunidade. Vou matá-la, como fazem as personagens na  peça? Ou abraçá-la e arriscar ser algo novo?

A vida está comigo, sinto-o.

Here we go again.

(agora, que releio este texto, lembrei-me que a peça começa com um copo de leite derramado... e foi o pacote de leite que caiu ao chão, sozinho, ontem à noite...)

terça-feira, 27 de março de 2012

Teatro?..

Hoje é o dia mundial dele. Trabalho nele quase todos os dias. Hoje, muitos o celebram. E eu dei por mim vazio na vontade de o celebrar. Deu-me o que pensar.

Que sinto eu pelo Teatro? E não é que não sei!

Gosto das palavras dele. Gosto da luz nele, dos corpos, dos jogos, dos símbolos, dos sons, da música, das metáforas.. Gosto da imersão no paralelo da realidade que proporciona.

Não o gosto panfletário, impositivo, revolucionário.

Gosto da forma como organiza o espaço: palco, plateia; da quarta parede, outro lado do espelho.

Gosto da convenção a que nos obriga, tácita. Gosto que a dite, clara.

Gosto quando é claro, preciso, literal e depois nos apanha desprevenidos nas curvas de poesia cénica.

E o engraçado é que estes 'gostos' cabem no teatro que gosto e no que não gosto.

Até aos 26 anos era um deslumbrado pelo teatro. Depois fui secando o deslumbre, à medida que aprofundava o métier.

Hoje é o que faço. Mais pelo teatro do outros que pelo meu.

Experimentei algumas vezes o meu teatro e abandonei-o cinco anos.

Este ano regresso a ele. (Pre)Sinto-o mais definido. Ainda não sei.

Mas o meu teatro é o da minha cabeça. Sei muito pouco de teatro, portanto.

Não sinto vontade de celebrar este dia.

E amanhã continuarei a cumpri-lo.

domingo, 25 de março de 2012

Dos tempos que correm.

Quem mais anda a sentir downloads no seu corpo? Downloads literais, como os que fazem aos computadores. Informação nova, complementar à existente. Updates de informação nas células, nos tecidos, no corpo, caramba! Com o cansaço que se lhes segue...

Não me impedem a produtividade.. quer dizer, atrapalham imenso, que só sinto a energia a esvair-se de mim no arrastar-me por entre as horas. Mas não deixo de fazer o que era suposto. Até dá tempo para umas sestas imperativas. É que se não descanso parece que acabarei por adormecer em qualquer esquina de rua por onde esteja a passar, como aquela vontade repentina de ir à casa de banho que nos obriga a entrar no primeiro café que se vê... Assim corro para o quarto, corro as persianas, acendo duas velas e caio na cama, a dormir.

Na realidade só fiz isto duas vezes. Mas apeteceu-me fazer muitas mais.

Os papos no olhos são gritantes. E claro, é inevitável pensar em ir ao médico. Já fui a uma osteopata, com quem me dei muito bem e tenciono voltar mais vezes. A pessoa certa no sítio certo. Quantas vezes o desejei, sem conseguir? Pois agora está fácil!

O tempo está apressado sobre si mesmo? Estaremos em fast-forward? Ou será a sensação de download a provocá-la? Que isto do tempo não é de se fiar...

O tempo.. se calhar são tempos do tempo. Tempos que correm no tempo que é. Seremos nós, feitos tempo, a correr no tempo?

Correr sim, mas não há propriamente pressa.. O que é estranho. Não é pressa dentro do tempo que corre.  É o próprio tempo que mudou, parecendo correr, mas só por comparação ao tempo antigo. O tempo novo é calmo, sem pressa. Mas é novo, com um novo tempo. Enquanto nos ajustamos, o tempo parece estar a correr, mas está no tempo certo do seu ser. Nós é que ainda não... por enquanto.... Como quando estamos prestes a pisar uma escada rolante, naquele momento em que saímos do tempo do nosso andar para o tempo da escada rolante...

Tempo paralelos, em existências paralelas, que se tocam. Nesse ato de contato estamos nós? Nesse tempo de dois tempos?

Se sim, não admira então a canseira...

terça-feira, 20 de março de 2012

Regeneração.

Há dias
rasguei indicador e dedo médio
da mão direita
na ombreira da porta
por ter lhe calculado mal a largura
enquanto levava o cesto grande
com a roupa molhada
acabada de tirar da máquina de lavar
para a estender a secar.

Ia alterado da consciência. A dor recuperou-ma. Sangrei um bocadinho.

Tenho vindo a reparar na cicatrização. Diária.

O meu corpo, no início, ainda com a dor, exigiu-me atenção. Depois tornou-se silencioso.

Regenera sem me incomodar. O meu corpo trata de si sem me incomodar.

Por que raio então o incomodo tanto com o meu pensar?


Montra.

Ontem. Zona baixa da rua do Carmo, junto ao Rossio. Inicio da tarde. Conversa com ZM.  Montra de loja.

A perceção, pela periferia do meu lado esquerdo, tomou-a por montra de antiquário com a figura de Cristo, em tamanho natural, exposta. A figura, corpo de Jesus, icónico, cabelos longos. Uma sensação de impactação meio assustada fez-se sentir no meus corpo,  mas dei pouca importância à coisa, que parecia normal. Ainda assim, foi inevitável o olhar melhor, que o arrepio falou mais alto.

De frente, com atenção consciente: sombra duma trave (que lembrava cabelo comprido), na cabeça do manequim, cinzento escuro, de loja de roupa, com uma caveira na tshirt.

A Sombra a fazer-me ver na sombra...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Esquematizador de emoções.

Sempre me tive como hiper-racional.

Uma vez, em Frankfurt, fui a uma terapeuta alternativa. Uma senhora magra. Alemã, muito para além da nacionalidade. Tem uma casa linda, divisões grandes, branca, espaçosa. Num dos quartos faz a sua função terapêutica. Uma marquesa no centro do quarto, uma secretária a um canto.

Fui lá porque estava frágil. Queria saber mais de mim, das maleitas da Sombra. Acreditava ir aberto, disponível, frágil é a palavra. Disposto a ouvir da generosidade dum outro a quem decidi dar-me. E julgava-me aberto para receber.

Ela fez o seu ritual.

Lembro-me que a páginas tantas as suas mãos começaram a passear pelo ar que rodeava a minha cabeça, em gestos largos, distanciados, sem lhe tocar. Gostava daquilo. Até ela proferir, rispidamente: 'a sua cabeça é enorme'. Senti culpa.

No final da sessão levei um raspanete, em inglês sotaqueado de radioatividade germânica: sou muito mental, a minha cabeça esmaga o meu ser com o pensamento. Fui sentenciado e condenado. Nem me lembro se algum conselho terapêutico surgiu daquilo. Mas lembro-me muito bem do que senti a seguir. Bom.. não logo a seguir.

Como sou muito submisso ao saber dos outros em quem decido acreditar, ouvi-a com lealdade. E senti-me traído. Começou com uma sensação de injustiça, que acatei. E paguei a consulta. Fez-me preço de estudante mas senti que quereria ter cobrado o preço total.

Saí dali. E começou.

A raiva apoderou-se de mim. O D., com quem ia, acabou por sofrer o impacto da minha ira. Verbalizei insultos à senhora, invadido de uma energia avassaladora. Gritei pela rua fora. D. silenciou-se e deixou-me vomitar a voz. Fiquei assim todo o trajecto de volta a casa, primordialmente emocional.

Sou mental? Na realidade, sou emocional. Hiper-emocional. Sombramente emocional.

O que saiu daquela sessão, acredito hoje, foi a Sombra liberta, vingadora da prisão mental que construí, que construo.

Sou muito emocional e, por isso, muito mental. Um emocional que o não sabe ser e que encontrou no seu mental um território interessante para construir uma barragem ao emocional. Fechou a comporta. A emoção acumulou. Os territórios separados, incomunicantes. Emoção tornou-se Sombra. A comporta do pensar cede, de quando em vez à pressão constante do sentir. Não se tocam, evitam-se, fecham os olhos um ao outro. Não negoceiam, não jogam...

Agora que escrevo, faço-o porque descobri, de uma nova maneira, a possibilidade de ser um esquematizador, à la Kant. Um esquematizador não nega a emoção; não nega o pensar, tão pouco. Coloca-os frente a frente, em negociação comuniKant!  O jogo é instável. O jogo é criador. Um jogo no espaço interior.

A tendência para o dominio do mental, do esquematizar só por si, do sintetizador excessivo, mantém-se. Mas a consciência tem andado a trabalhar sobre si mesma. O meu espaço interior aumenta e percebo-o melhor.

Sinto-me ético?

Voltarei a este páteo. Até já.

sábado, 1 de outubro de 2011

30 de Setembro

Aniversário de casamento da minha irmã do coração.
Aniversário do filhote da minha amiga do coração.
Aniversário da morte do pai do meu 'amigo' do coração.

Casamento, nascimento e morte. Aconteceram em anos diferentes mas são recordados todos os anos. Quando se tornaram simultâneos passaram a invocar, no mesmo dia, energias muito diferentes. Cada uma a puxar-me para seu espaço.

Hoje, a última destacou-se. E vivi-a com quem melhor quero nesta vida.

Lá para as horas do entardecer, o Porto ficou mágico. Água na água. Água no ar. E muito Sol. As dimensões tornaram-se mais visíveis na sua sobreposição, no seu serem diferentes em simultâneo. Tal como as emoções.

Escrevi no Face: "Há qualquer coisa de benção divina neste sol de outono. Ao meu olhar os objectos quase se transfiguram e parecem mais do que dão forma. O ar fresco trás-me de volta aqui porque, neste cenário, vai-se depressa para o "lado de lá"..".

Por muitos momentos saí de mim, sei-o. Mas ficou apenas a experiência da dormência e do spaced-out. Ainda assim, a sensação de transcendência, no que percepcionava.

O coração começou a falar e disse surpresas. Mas as palavras que saíram do transe acordaram a Sombra. Comecei a racionalizar, ainda que pouco para o que me é costume. Esta minha condição de me sentir dissolvido, mas completamente dissolvido, trás esta benece: a mente também o está.

Fiquei com a sensação da multidimensionalidade, mas não o posso, de todo, afirmar que existe. Só me pareceu que havia mais, naquilo que via nas formas, e a luz ajudava. Também tive mais uns daqueles momentos em que as coisas paradas pareciam mexer. Mas, novamente, a pouca lucidez do momento não me dá base para uma afirmação de realidade, apenas para a de uma percepção alterada.

Ando sistematicamente alterado. Durmo que nem um urso hibernante. Como irascivelmente. Doem-me diferentes partes do corpo, especialmente os pés. Estou claramente deprimido.  E transmutante, espero. Porque se for só deprimido mesmo.. olha 'filho da mãe que tens uma grande depressão B'!!

Era suposto ter ido para Lisboa, mas no íntimo sabia que não o faria. As minhas amigas que me perdoem, que contavam comigo. Eu que me perdoe, que me havia prometido exílio deste sítio.

30 de Setembro. Emoções diferentes, simultâneas. Dimensões diferentes, simultâneas.

(que puta de confusão)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Seja.

Ontem, depois do encontro com o meu amigo Oshoiano, senti que perdera densidade e estava mais leve e harmonizado. Foi uma conversa maravilhosa onde me surpreendi a sentir muito e a racionalizar obsessivamente pouco. Isto teve consequências físicas: as minhas células estavam contentes. Elas agora fazem-se sentir cada vez com mais clareza.
Anyway.
Realizei enquanto andava na rua: 'Se esta é a vida que eu tenho, esta só pode ser a vida que decidi ter antes de vir tê-la; logo é a vida que mais me convém, porque é do meu plano pessoal; logo é a vida que tenho que viver, por muito que, à medida que a vou tendo, me apeteça ter outra.'
Ontem fez mais sentido, e a elaboração verbal era mais clara, parece-me.
Por outras palavras, não faz sentido projectar-me noutra vida/vivência que agora pense ser melhor.
A lealdade ao plano original, que obviamente desconheço, parece ser determinante.
Lá está, mais uma vez, fé.
Sou isto, nesta vida, agora. Em vez de querer ser aquilo, vou ser fiel a ser isto. Mesmo que aparente, em muitos momentos, e com muita veemência, que podia ser 'outra coisa' melhor.
Deixarei para outras vidas ser outra coisa.
Deixarei para outras vidas relações com pessoas com as quais não dá para me relacionar nesta como desejaria.
Tudo o que não estiver a ser agora, fica para outra.
Só o que estiver a ser agora é para ser.
Apesar de que o que está a ser agora é impasse, adiamento, engorda, fôlego suspenso. São juizos, fruto de sentimentos processados. Pronto.
Esta é a minha vida agora. Não outra. Esta.
Seja.

Branco

Preciso de branco. Como se de uma câmara de luz se tratasse.
Todas as paredes de minha casa estão a ser pintadas de branco. E quando visualizo o trabalho acabado sinto-me noutra dimensão.
A visão é do branco à noite. Como se de noite a casa se iluminasse por dentro e iniciasse uma irradiação magna de luz de dentro para dentro.. e eu me banhasse nela.
A minha casa transformada numa câmara de luz transmutadora. Eis o que pressinto.
Como se ficasse preparada para se sintonizar com dimensões irradiadoras de luz transformadora e o meu corpo fosse o receptáculo dessa missão.
O trabalho de pintura está a trazer ao de cima todas as minhas resistências e desistências.
O trabalho de pintura está a trabalhar-me por dentro?..
A Sombra está aos saltos.
Só pode ser boa, a visão.
Só pode ser positivo, o que se avizinha.

Days slipping through my fingers.

Waiting.
To sign new contract.
To start new job.
For must needed paycheck.
For the walls to be painted and the flat to be back to normal.
To eat properly.
For my foot to heal and go back to exercising.
...
...
...
...
To run out of excuses.

domingo, 25 de setembro de 2011

"The integrity to be alone"

"In fact a mature person does not fall in love, he rises in love. The word ’fall’ is not right. Only immature people fall; they stumble and fall down in love. Somehow they were managing and standing. They cannot manage and they cannot stand – they find a woman and they are gone, they find a man and they are gone. They were always ready to fall on the ground and to creep. They don’t have th...e backbone, the spine; they don’t have that integrity to stand alone.
A mature person has the integrity to be alone. And when a mature person gives love, he gives without any strings attached to it: he simply gives. And when a mature person gives love, he feels grateful that you have accepted his love, not vice versa. He does not expect you to be thankful for it – no, not at all, he does not even need your thanks. He thanks you for accepting his love. And when two mature persons are in love, one of the greatest paradoxes of life happens, one of the most beautiful phenomena: they are together and yet tremendously alone; they are together so much so that they are almost one. But their oneness does not destroy their individuality, in fact, it enhances it: they become more individual." ~ (Osho)



Ora bem. Se isto não resume em sabedoria o que ando aqui a reflectir..
Foi-me oferecido por um amigo,  de passagem cá no Porto.
To rise in love! Lindo.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O alívio de estar longe de mim

"I would like to be here, I would like
To be there,
I would like to be everywhere at once.
I know that's a contradiction in terms,
And it's a problem, especially when
My body's clearing forty as my mind is
Nearing ten."

(Guido Song. Do musical NINE)

Voltei a casa. Só.
O verão foi cheio de gente e de experiências com gente.
Durante esse mês e meio quase nunca estive comigo.
Quando estive, procurei formas de estar com outros.
A Vida não me desapontou.
Os outros foram muitos.
A muitos dos outros, quase todos?, dei de mim, provavelmente o mais luminoso de mim?..
Sinto que cumpri esse dar..
- Restou alguém?, perguntou-me ontem um amigo pelo chat do FB.
- Restei eu!, respondi.
- Nada mal. - disse ele.
Restei eu.
Ontem dei por mim a conseguir estar comigo, a gostar, inclusivé.
E perguntei-me quantas pessoas haverá neste mundo com esta mesma questão: estar bem consigo.
Apeteceu-me fazer uma investigação.
Mas a primeira investigação é sobre mim próprio.
Não é de hoje, mas 'hoje' é o momento mais lúcido para o fazer.
Hoje acordei e comecei a 'distrair-me' com o que preciso fazer antes da nova fase que está quase aqui.
Este fazer é importante, mas dei por mim não querendo fazê-lo, mas a fazê-lo na mesma, porque sou teimoso. Só que longe de mim.
A sensação é flagrante: ansiedade, vontade que acabe depressa, querer estar 'noutro sítio', cansaço imediato, energia que se esvai em segundos, 'esta merda nunca mais acaba!'... até à obnubilação geral, estado em que, uma vez lá, iniciam-se processos negros de auto-destruição.
Consciencializei e regressei.
Estou comigo, agora. Fiz o almoço e estive comigo. Comi e estive comigo.
Se me distraio, fujo.
O exercício de atenção sobre mim mesmo é exigente.
Mas sinto já algum alívio no estar perto de mim.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Feliz Ano Novo!

E já vamos em Maio. Ano sob o signo da transmutação.
Alteração das percepções. Ajustes moléculares, a-dê-énicos, sinápticos.. Cirurgias alquímicas.
Destabilização e Milagre.
Solidão e Protecção Mágica.
Encontros com os meus irmãos.
Insónias e Sonos de Cura.
Mensagens e sincronicidades.
Desfasamentos temporais e oscilações espaciais.
Messages in the bottle multidimensionais, de mim para os 'outros mins'.
Insights e Depressão.

Hoje fui outra vez ao cinema. Meditação: o que levo para as relações? porque deixo de ser quem sou quando lá estou?
Fora aconselhado a não querer compreender. Então só me restou ter fé. Decidi prescindir daquele modo de ser alterado, entreguei-o ao Cosmos. Em fé.
Recebi esta resposta: da fé vem o conhecimento verdadeiro. A fé como moeda de troca do Universo: dá-nos os teus medos e padrões circulares, em fé, e levamos-te ao conhecimento de ti. O conhecimento de mim: não de me compreender, mas de me entregar. Salto de Fé. Teste ao desapego do que até agora me fez auto-identificar-me. Vvvvvvvvuuuuuum!
Quero ser limpo e tranquilo nos relacionamentos. Preservar-me e ser flexível. Dançar com quem amo!

A Solidão também teve o seu espaço. Imenso, como um cosmos, dentro de mim. 'Aceita-a como parte de ti, do mais intrínseco de ti, celular.' Tenho a Solidão nas células. Aceitar isso. E percebi que ela serve para me catapultar para a fé. Sou um ser de fé adormecida. A Solidão entra como mecanismo para o salto de fé: não compreender, ir.

Continuo o miúdo, no que toca às emoções. O adulto está todo fodido, já nem aguenta a máscara. E isso é suposto ser bom.

Keep going.
Return to writing.
Fuck off.
Hello!!!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Tornado visível.

Há mais de mês e meio que não me registo em palavras escritas. Mas as acções têm sido tantas, tantas, tantas que nem o fim de ano mas vai 'obrigar' a sistematizar em síntese. Aliás o fim de ano não obriga a nada. A tudo me obrigo eu, e here we go again.. quem fala quando digo 'eu'?
Estes seis meses foram um curso bem intensivo. E em muitas coisas parece que regredi. Noutras avancei. Noutras resolvi. Noutras mantive-me. Tudo igual a todos os processos, em suma. Com uma diferença: muito menos negação, mais confrontação interior, alguma aceitação e perdão, também interiores.
Estou muito contente por estar a acabar estes seis meses. E pretendo celebrar o trabalho e as surra que apanhei e que 'entre mortos e feridos' superei.
Porei os sentidos em 2011, alguns já lá estão - ou já o sentem - com mais andaimes interiores, estruturas algumas delas basilares que me faltavam, e quanto me faltavam... Estarei ainda em processo iniciático.
Mas estarei.
A Sombra continuará a manifestar-se, e a fazer o que é suposto: manter-me escuro o caminho que percorro passo a passo para o ir iluminando a cada um que dou. Presentes dados e vividos no Presente, nos interstícios da Sombra.